sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Pela Conferência Nacional de Saúde Mental em 2009

DIREITOS HUMANOS PARA QUEM ACREDITA NA IMPORTÂNCIA DA LIBERDADE

“Devemos lutar pela igualdade sempre que a diferença nos
inferioriza mas, devemos lutar pela diferença sempre que a igualdade nos descaracteriza".

Boaventura de Souza Santos


1. BREVE HISTÓRICO
Há duzentos anos, quando as cidades começaram a se organizar, nos primórdios da era industrial, devido à preocupações higienistas, de manter as cidades com aparência bonita, deu-se início à construção de grandes instituições asilares, uma espécie de depósito de lixo humano, onde as pessoas ficavam guardadas até à morte.

Nestas grandes instituições, onde não haviam critérios para se internar seres humanos, não havia nenhuma chance de defesa e nem recuperação para os internos, era simplesmente uma condenação que durava enquanto houvesse vida.

Quando surgiram os remédios psiquiátricos na década de 50, criou-se uma idéia de que a farmacologia podia ajudar na recuperação dos pacientes rotulados como doentes mentais. Havia a crença que os remédios poderiam normalizar o comportamento das pessoas, acabando com os delírios, depressões e outros sintomas. O que teria vindo para o bem destes pacientes, foi simplesmente o início de uma era de um novo tipo de violência contra seres humanos que nunca tiveram direito de expressão, de defesa e de um lugar digno para construírem suas vidas felizes.

A indústria farmacêutica, de olho no mercado altamente lucrativo, começou a desenvolver drogas psiquiátricas chamadas de segunda e terceira geração, com a promessa de uma grande revolução no tratamento das doenças psiquiátricas. Na prática, a coisa não foi bem assim. Mesmo sabendo que a medicação pode ajudar em alguns casos, sabemos que existem limites para a atuação das drogas e que os abusos destes remédios deixam os pacientes em vida vegetativa.

Por indignação dos próprios trabalhadores da saúde surgiu a Luta Antimanicomial, constatado que não haveria tratamento possível em uma instituição trancada, pois dentro de uma instituição não existe relações afetivas saudáveis, apenas relação de poder entre quem é o doente e quem é o profissional detentor das vontades individuais e coletivas dos “doentes” internados.

Para acabar com os manicômios, surgiu a proposta dos tratamentos substitutivos, onde os pacientes seriam tratados em liberdade, com o direito de serem acolhidos nos momentos de maior sofrimento, por equipes multidisciplinares da saúde. As longas internações seriam substituídas pelos pernoites, que eram avaliadas e reavaliadas em períodos bem curtos de tempos, sendo que o paciente seria co-autor do seu próprio processo recuperação, com direitos e deveres.

2. ENTRAVES PARA A CONSOLIDAÇÃO DA LUTA ANTIMANICOMIAL BRASILEIRA
Com muito trabalho os Militantes da Luta Antimanicomial conseguiram a aprovação de uma lei federal para extinção gradual dos manicômios assim que fossem construídos os serviços substitutivos que acolheriam os pacientes.

Mesmo contra adversários poderosos a Luta Antimanicomial avançou e se tornou política de estado. Atualmente a Luta AntiManicomial, que tem muita história bonita para contar, vem sofrendo duros golpes de seus adversários. Para não correr o risco de por a perder toda a construção histórica de inclusão da loucura na sociedade, precisa renovar a discussão e sensibilizar novos militantes e estâncias de governo, para que a loucura continue provando que todos devem ser iguais nos direitos e deveres, mesmo sendo diferentes.

Antes de explicitar os argumentos dos adversários, precisamos que os militantes dos direitos humanos entendam que é urgente, que no próximo ano haja, de forma inegociável, uma nova Conferência Nacional de Saúde Mental.

A história dos militantes é uma história de pessoas que acreditam que um mundo melhor para todos é possível, por isso lutam por amor à causa. Hoje militantes dos direitos humanos, estão sendo condenados pela justiça a pagar grandes indenizações, simplesmente porque se atreveram enfrentar o poderoso lobby dos hospitais psiquiátricos. O que está por detrás destes comportamentos escusos?

· Um argumento muito usado pelos que escolheram a perpetuação dos manicômios é que a teoria da Luta Antimanicomial é muito bonita, mas na prática não funciona.



· Esta tentativa de abalar e desestruturar a luta pela liberdade mostra o desespero de grandes indústrias, que querem minar nossas forças e crenças, para não perder o controle das pessoas e dos segmentos de mercados. Como estratégia a indústria patrocina pessoas sedentas de sucesso a qualquer preço, mais ou menos como Hittler, para utilizarem as suas posições sociais e status profissionais para camuflar as suas verdadeiras funções (vendedores de remédios, camelôs de laboratórios).



· Para qualquer pessoa que tenha uma pequena percepção do que é certo ou errado é fácil entender esta jogada, pois a indústria farmacêutica sai perdendo, caso a Luta Antimanicomial conquiste um reconhecimento nacional. Se isto acontecer, as pessoas vão perceber que a publicidade dos laboratórios é feita de ilusões mentiras e facilidades, bem parecidas com as das falsas igrejas neopentecostais que vendem a salvação da alma. O biologicismo é uma espécie de culto futurístico, onde a perfeição comportamental ideal é conquistada com reajustes neuroquímicos de drogas sintéticas.


· Os adversários não querem que os militantes dos direitos humanos sejam pessoas bem sucedidas na política. Tanto é verdade esta afirmativa que se você consultar vai perceber que no geral, as pessoas acreditam, por influência dos meios de comunicação de massas, que direitos humanos só existem para defender bandido.



· Junto com a indústria farmacêutica, o monopólio dos meios de comunicação de massas, dá 100% de suporte ideológico à indústria, tirando dos expectadores toda e qualquer possibilidade e locais para contestação das idéias, nos restando apenas a revolta ou a resignação. Mantendo o sistema consumista, como a única saída para amenizar as dores da vida. Haja Shopping Center e devastação ambiental para suportar o imperialismo.


· Se a Luta Antimanicomial vencer e destruir do imaginário popular a falsa crença da supremacia médica sobre todas as outras profissões da saúde, todos vão constatar que as drogas psiquiátricas não são eficientes assim e que se as pessoas resolverem pensar, vão descobrir causas sociais, humanas e psicológicas que não podem ser resolvidas de imediato.


· Se as pessoas resolverem contestar a medicina, os laboratórios, a finalidade dos meios de comunicação, vai haver uma mobilização social para transformar a sociedade para melhor, o que vai gerar menos lucros no mercado, por haver mais preocupação social. Isto vai perturbar os interesses neoliberais que defendem o estado mínimo. Mínimo para o social, máximo para manter a ordem com o aparato da violência policial. O neoliberalismo escraviza até os seus servidores, nos uniformes e nas fardas, que são verdadeiras jaulas, onde cabem apenas um animal, em cada farda.



· Antigamente, quando cientistas não eram escravos de grandes corporações, a ciência se desenvolvia livremente, com pessoas, que antes de serem cientistas, eram filósofos e observadores da natureza. As grandes corporações, para não dividirem os lucros, criaram o mito que a ciência só pode se desenvolver com muito dinheiro com o objetivo de servir ao capitalismo, o que não é verdade, mas ao mesmo tempo domina o imaginário popular. Com o sucateamento das escolas públicas brasileiras, que perderam espaço para os interesses das escolas particulares e de instituições com interesses religiosos, os alunos brasileiros se automatizaram a marcar x e perderam a capacidade de reflexão. A maioria dos alunos entende que na ciência a teoria antecede a prática.


· Hoje temos escolas, com teorias que fundamentam as ciências, não porque alguém fundamentou uma teoria, mas sim porque alguém teorizou a prática pelo método de tentativa e erro. Estes cientistas deixaram registrados seus conhecimentos, que na escola nos ajuda a poupar tempo no caminho já trilhado por outros e promover a continuidade do avanço ciêntífico.



· Quando os cientistas do mal fundamentam as ciências em mentes despreparadas para reflexão crítica, criam constantemente mentes frívolas que levam a vida só pensando em tomar cerveja, usar roupa da moda e praticar sexo com a Madona ou com qualquer outro símbolo sexual. O amor para de existir e reina a discórdia, pois os meios de comunicação fascinam tanto as pessoas, que lhes roubam o raciocínio lógico. As pessoas passam a não gostar mais de pessoas e sim de personagens intocáveis, pois se tornarem tocáveis serão humanos e não serão mais ídolos de promoção ideológica. O desrespeito à vida surge, pois não existe amor à vida, exige amor ao dinheiro, ao poder, ao sucesso, tudo isto para não entrar em contato consigo mesmo.



· Quando falam que a teoria antimanicomial é boa, mas na prática não funciona é uma grande mentira com força demoníaca, que não permite que o processo científico tentativa e erro ocorra para construir uma ciência múltipla e libertadora.


· Os inimigos não querem o avanço das ciências humanas e sociais e nem a valorização dos pedagogos e professores, que poderiam transformar a sociedade. Isto é facilmente constatado observando o cenário político nacional quando o presidente Lula decretou o piso nacional para os professores públicos. Mesmo com força de decreto, nenhum estado brasileiro acatou o decreto e o estado de Minas Gerais entrou na justiça para não pagar o piso.



· Como recurso de reflexão, vemos a tentativa da psiquiatria biológica em resgatar métodos de tortura disfarçados de tratamentos médicos humanizados e necessários. Quando um médico psiquiatra indica eletrochoque ou psicocirurgia a pais desesperados que não conseguem encontrar pessoas que trilharam outro caminho mais feliz. Acarreta sérias conseqüências sociais. Uma solução que vende um glamor, uma falsa beleza e aumenta a falsa idéia da supremacia médica.


· Pode-se conhecer várias pessoas ainda vivas que sofreram por anos estas torturas, com aval de familiares que acreditavam estar fazendo o bem. Estas pessoas não tiveram nenhuma chance de escolha ou de defesa e hoje se beneficiam dos tratamentos substitutivos, com seqüelas irreversíveis na alma e no corpo.



· Hoje com os direitos conquistados pelos portadores de sofrimento mental, pouca coisa pode ser feita para recuperar o trauma de um passado cruel e triste, com lembranças dolorosas. Mesmo que todos resolvam sozinhos, com ajuda de amigos e familiares entrar na justiça para pedir um reembolso pecuniário por danos morais e materiais, o dinheiro só servirá para viver o pouco tempo que resta de vida com mais dignidade e ajudar as verdadeiras instituições que lutam a favor dos direitos humanos e da liberdade com tantas dificuldades financeiras. Também seria uma resposta da sociedade que clama por uma sociedade mais solidária e respeitosa que exige os direitos constitucionais.



· Quando, sem dar oportunidade a outros saberes do mundo contemporâneo, privilegia o saber médico organicista, se aprova , sem resistência, causando um monólogo da facção médica subserviente a interesses eugenistas, deixando de criar um processo de construção honesto da valorização de profissionais das ciências sociais, humanísticas e da tão massacrada e importante pedagogia e magistério.



· Quando de geração e geração se reforça o imaginário popular da supremacia do saber médico sobre outros saberes, reforça o poder de dominação dos meios de comunicação de massas e da indústria farmacêutica, sem criar um tipo de resistência pacífica inteligente que não deixa o mercado por goela abaixo qualquer coisa na mente dos cidadãos, que se tornam meros números descartáveis.



· Quando reforça o saber médico como hegemônico, de geração em geração a academia formará menos profissionais interessados em amenizar a dor das pessoas e sim profissionais interessados em engordar a conta bancaria. Mesmo que não é socialista já sofreu na pele com algum médico. É inaceitável que a medicina se torne uma indústria cheia de profissionais que tem a alma envenenada pelo desejo de poder e dinheiro. Cada vez temos menos terapeutas e mais mercenários trabalhando o espaço que seria reservado para a saúde.



· Por estas e outras verdade, Deus quis que Chico Xavier fosse brasileiro e escrevesse o livro: Brasil coração do Mundo e Pátria do Evangelho. E Deus é tão bom que não deixou Chico Xavier sozinho. Junto com ele ajudou humanos falíveis escrever na constituição federal de 1988 que saúde é direito de todos e dever do estado. Assim surgiu o SUS (Sistema único de saúde), que ainda não conseguiu ser reconhecido como bom em relação ao privado que além de dominar faz de tudo para fuder o SUS, com ajuda da mídia e de políticos patrocinados por empresários do mal, que desviam o dinheiro da saúde e promovem o descaso que matam muitas pessoas, sem nenhuma dor de consciência. Saúde não pode ser lugar para ficar rico.



· Essas reflexões dão para nortear uma boa Conferência de Direitos Humanos na saúde, para quem acredita na Liberdade!

ESQUERDOS AUTORAIS – Esta publicação pode ser reproduzida por quaisquer meios, desde que citada a fonte.

RENILA – Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial

A LIBERDAE É TERAPÊUTICA, ELETROCHOQUE NÃO!

EXCLUSÃO SOCIAL PROVOCA MUITA DOR E REVOLTA, O PROCESSO DE INCLUSÃO SOCIAL SE FAZ COM MUITO AMOR NO CORAÇÃO E SEM SEGUNDA INTENÇÃO

4 comentários:

Kaamirã disse...

Macacos me mordam se esse texto não tiver a assinatura de Paulo José Azevedo de Oliveira. Grande Paulinho!!! Abraço fraterno, Rogelio Casado.

Paulinho Legal disse...

Rogélio, obrigado pelo crédito. Nem eu acredito que minha alma produziu este texto. Acho que sou movido pela indignação. A cultura manicomial é a contra-cultura que Caetano Veloso já tinha dito: "(...) A força da Grana que destrói coisas Belas (...)"

Enquanto o mundo tiver pessoas subordinadas ao poder do capital insubordinado, o Mundo será sempre regido pela lei do mais forte.

Para mim, não existe maneira de humanizar o capitalismo, porque o sistema do capital quem dá as regras são so donos do capital.

Eu quero estar vio para ver o dia que alguém vai conseguir subordinar o capital à consciência ecológica e ao respeito à vida. Qual será este novo sistema. Na minha cabeça é uma espécie de sociedade alternativa com a concepção de que trabalho é qualquer coisa útil, não necessáriamente ligada ao capital. Viva o trabalho voluntário e solidário; e viva a militância dos movimentos sociais que trabalham pelo ideal de uma sociedade melhor!
Um abraço querido amigo. Saravá!

Paulinho Legal disse...

correção: eu quiz dizer cultura e não contra-cultura, pois cultura é hegemônico e contra-cultura é resistência.

Desculpe-me. Um abraço a todos!

Glosvalda disse...

Vou usar esse teu "desabafo", que é a mais pura realidade,como parte do material que irá na pasta dos participantes da I Conferência de Saúde Mental da cidade onde traabalho(Marco, no Ceará).Pode ser,né?